Libertadores: Cardiologista do Flamengo explica a preparação e cuidados para estreia na altitude de Oruro

No que depender do departamento médico, o Rubro Negro da Gávea está pronto para disputar a primeira rodada do principal torneio sul-americano. Nesta terça-feira (5/3), às 19h15, a 3735 metros acima do nível do mar, encara o San José, da Bolívia

Da Redação
Rio de Janeiro, RJ, 4 de março de 2019

Quando saiu o sorteio da Libertadores 2019, todos ficaram sabendo que o Flamengo subiria o morro duas vezes na primeira fase. Logo na estreia, a equipe vai até Oruro, a 3735 metros acima do nível do mar, além do San José, time da cidade boliviana. Se não bastasse uma vez, no dia 24 de abril, o time de Abel Braga sobe de novo, dessa vez para a mais amena Quito, a capital do Equador, a 2850 metros, para enfrentar a Liga Deportiva Universitária.

Jogar lá em cima não é novidade para o Flamengo. Em cinco oportunidades, todas na Libertadores, a equipe jogou acima de 3000 metros e o retrospecto não é o melhor, com três derrotas, um empate e somente uma vitória, em Cusco, por 3 a 0 sobre o Cienciano. Acima de Oruro, o Flamengo jogou em Potosí duas vezes contra o Real, com um empate (2 x 2, em 2007) e uma derrota (2 x 1, em 2012).

Para a nova aventura, o Flamengo recuperou as experiências anteriores e montou sua logística para enfrentar o cenário da cidade boliviana. O médico cardiologista do clube, Doutor Serafim Borges, explicou como será o planejamento, o que pode ocorrer e quais as recomendações dadas ao time para que os efeitos sejam os menores possíveis e os jogadores se preocupem apenas em jogar – e vencer – o San José.

No sorteio da Libertadores, o Flamengo ficou sabendo que enfrentaria a altitude duas vezes. Qual foi a reação da equipe médica e como começou o planejamento para encarar a inóspita Oruro?

É um ambiente inóspito para realização de atividade física e exercício. Em até 2.500 metros, ficamos tranquilos, porque nada acontece. Nós temos esses dados. O que a gente já faz há muitos anos é chegar na hora do jogo, uma hora e quarenta minutos antes, aí aquece e vai para o jogo. Temos dados que mostram que a partir da sexta hora a coisa fica muito complicada. E a sétima hora, então, a pessoa exposta à altitude acima de 2.500 metros é muito complicada. Oruro fica a quase 4.000 mil. Já jogamos em Potosí, a 4.000, que foi o pior. Quito fica a 2.800, e aí senti menos.

Os atletas fizeram trabalho especial para fortalecimento da musculatura respiratória. E também suplementação com vitamina C e sulfato ferroso, para colocar mais hemoglobina. Quanto mais hemoglobina tem no sangue, você consegue conduzir mais oxigênio?

Na altitude falta oxigênio? Não. O percentual é o mesmo de 21% do nível do mar, mas a pressão lá é menor. Se eu jogar uma semente de ervilha lá em cima, elas ficam dispersas. Não tem pressão para colocar nas vias aéreas do indivíduo que está lá. Alguns cuidados são tomados, a velocidade da bola aumenta muito e o atleta deve estar preparado. Não deve dar piques longos na altitude, para não aumentar mais a frequência cardíaca, que já aumenta muito. A respiratória também aumenta e você começa a perder a capacidade de ter o oxigênio disponível. O Flamengo está preparado para Oruro. O objetivo é chegar na hora do jogo E, obviamente, a ideia é dar continuidade para Quito. Lá tem problema. O jogador perde coordenação. Tem preparo especial para os membros da comissão técnica também, com medicação, menos para os jogadores, que não podem usar.

Muito se discute sobre o momento certo para chegar no local do jogo. Fala-se em dias antes, na hora, semanas antes. Afinal, qual a melhor recomendação?

O melhor é chegar na hora do jogo. Fazemos isso há muitos anos. Temos experiência grande com isso. Todos os colegas no Brasil fazem esse tipo de adaptação há muito tempo. Chegar antes do jogo, dois dias antes, não vai adaptar, vai piorar. Até porque, sabemos que a partir da sétima hora exposto à altitude, a situação começa a piorar. O que piora? Você aumenta muito a frequência cardíaca e respiratória e perde performance. Seria necessário estar lá há quatro semanas, mas é impossível pelo calendário. Na época que fizemos o projeto e levamos à Fifa, fomos derrotados. Todos os médicos da América do Sul assinaram a documentação, menos a Venezuela. Pedimos que não tivesse jogo acima de 2.500 metros sem a adaptação de quatro semanas. É vantagem que não é elegante nos esportes.

Em 2007, ficou célebre a imagem de jogadores utilizando cilindros de oxigênio no jogo contra o Real Potosí. Isso está planejado para essa partida? São realmente necessários?

São necessários, sim, e tem que fazer. Temos os dados disso. Temos um aparelho que você coloca no dedo chamado oxímetro digital, que mede o teor de oxigênio no sangue. Os que estão abaixo de 90 precisam de suplementação de oxigênio. Não tem jeito. Não é inventar a roda. É ter a fisiologia do negócio para ajudar o indivíduo a não ficar exposto. Uns são mais sensíveis, outros resistem mais. Todos são medidos. E para quem estiver precisando, teremos sete balas de oxigênio a disposição.

Alguns jogadores correm mais que outros, como Berrío e Bruno Henrique. O senhor disse que o atleta deve evitar muitos piques. Como é o caso dos corredores do time?

Os atletas de velocidades são estudados. E eles, como o Berrío, possuem performance melhor. Os de resistência, que correm mais, porém em menos intensidade, também são estudados. E eles possuem lastro grande, então não sentem tanto. É fato que, se começar a dar pique acima de dois minutos, em alta intensidade, independentemente de estar na altitude ou no nível do mar, você começa a produzir uma acidose no corpo que evidentemente traz prejuízo à performance. É muito difícil que o indivíduo mantenha o pique de mais de dois minutos. O jogador veloz tem  característica de ter fibras rápidas, que trabalham com menos oxigênio. O que precisam entender é o peso da bola. O peso e a velocidade da bola podem enganá-los. Os goleiros principalmente.

O senhor conhece algum caso de jogador que tenha apresentado problema específico na altitude?

Na minha passagem, não tive com jogador. Tive com repórter e comissão técnica. Com jogador, não. Tem uns que possuem sensibilidade ruim, com queda de captação de oxigênio muito intensa. Então esses a gente não recomenda que subam. Já tivemos com esse tipo de jogador na altitude e vimos que não comporta bem. Mas não tive nenhum caso grave. O que acontece é o chamado Mal da Montanha. O sintoma mais grave é o edema agudo de pulmão. O edema da altitude é diferente do nível do mar. Aumenta muito a pressão na artéria pulmonar. Então precisa tirar a pessoa da altitude na hora para melhorar. Não adianta tentar medicamento.

Após a preparação, qual a sua projeção para a equipe no jogo? É possível ter alguma surpresa?

O time está pronto. As surpresas sempre podem acontecer. Não temos dados de quem tem mais sensibilidade. Dos times passados, sim, mas deste atual, não. Nós tivemos mais tempo e conhecíamos bem os atletas. Mas este time atual está preparado. A resposta que a fisiologia tem dado diz que não devemos ter surpresa.

E após o jogo, qual a primeira medida que deve ser tomada?

Descer na hora. Mas tem um problema. O exame anti-doping. Se o jogador que for pro doping demorar muito a urinar, isso complica. Já tive problema com a Seleção Brasileira. O time fica preso e as pessoas começam a passar mal no ônibus, jogadores com pressão alta, vomitando. Se o jogador urinar logo, tudo bem, mas quando vai um que demora, é complicado. Então precisa descer logo, é a primeira coisa a fazer.

Fonte: assessoria de imprensa do Flamengo