Opinião: Precisamos falar sobre Tiffany

Segundo o colunista, muitas atletas já reclamaram do erro que a Superliga brasileira e, agora, a Federação Internacional de Vôlei insistem em cometer o possível erro

Coluna Esporte na Rede, por Leandro Martins
São Caetano do Sul, SP, 30 de janeiro de 2018

No Brasil, sempre imperou e, pelo visto, continua imperando a famosa Lei de Gérson, na qual as pessoas tentam tirar vantagem em tudo e dar aquele jeitinho tupiniquim para resolver problemas que precisam de atenção, discussão, debate e reflexão em alto nível.

É mais ou menos esta a discussão em torno da Tiffany, a primeira jogadora de vôlei transexual feminina. Muitas atletas já reclamaram do erro que a Superliga brasileira e, agora, a Federação Internacional de Vôlei insistem em cometer. As demais atletas não aceitam a presença de Tiffany entre as mulheres. Com razão.

Essa é uma situação que passa longe do preconceito. Sou extremamente a favor da diversidade, da comunidade LGBT, da formação de famílias com pessoas do mesmo sexo, de famílias com casais ou com três ou mais pessoas. Sou mente aberta e acho que a sociedade precisa evoluir muito nestas questões.

Porém, Tiffany nasceu em um corpo masculino. E, como tal, trabalhou sua musculatura para jogar vôlei entre os homens. Sua estrutura óssea é reforçada. A compleição física é diferente da de uma mulher. A mulher tem o quadril mais largo, mamas mais desenvolvidas, que fazem com que, em geral, a mobilidade, a aglidade e a força sejam diferentes das dos homens.

Tiffany tem uma vantagem competitiva em relação às demais atletas. Ela não nasceu mulher. Simples assim. Recordo-me de outra discussão polêmica, em 1996, pouco antes dos Jogos Olímpicos de Atlanta, acerca da feminilidade da judoca Edinanci Silva. Existia uma discussão com relação ao índice hormonal de testosterona que ela apresentava.

Edinanci ficou conhecida no Brasil como um caso de hermafroditismo no esporte. Uma pessoa que desenvolveu ambos os sexos, masculino e feminino. Chegou a fazer uma cirurgia antes das Olimpíadas para poder competir na categoria feminina. Edinanci tinha uma certa vantagem competitiva com relação às outras mulheres, pois seu corpo se assemelhava mais ao de um homem. Mas o sexo que predominava era o feminino.

Depois de todos os exames de sangue e outros tantos minuciosos hormonais e até de antidoping, os representantes do COI decidiram que o visual é o que valeria. E constataram que Edinanci é mulher! Ela tinha uma vantagem competitiva sim, mas lhe foi dada pela natureza. Não por um processo de mudança de sexo.

O esporte é um meio que envolve fama, dinheiro, poder. Muita gente enlouquece e é capaz de tudo para vencer e para conquistar isso. Imagine você se outros homens começarem a mudar de sexo para terem uma vantagem competitiva no mundo do esporte feminino. É claro que Tiffany não mudou apenas por isso, mas sim porque ela se entende como mulher. Muito válido. Mas, no âmbito esportivo, ela tem vantagens naturais que nenhuma atleta jamais terá.

É um caminho perigoso para o esporte e as demais atletas têm total razão em reclamar. Seria muito mais bacana vermos a Tiffany, transexual feminina, sendo aceita em times masculinos e jogar por eles, por exemplo. Ainda que ela se sinta mulher, seu corpo foi moldado de maneira masculina.

Em 1996, no caso Edinanci, somente uma taxa hormonal não foi critério suficiente para determinar em que categoria esportiva ela deveria atuar. E não pode ser mesmo! É um precedente muito arriscado. O bom senso também deveria ser usado no caso Tiffany. Um forte abraço e até a próxima.